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Professora de Lingua Portuguesa e Literatura. Encantada e comprometida com a vida.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

"Eu Sou Uma Mulher" de Marina Colasanti



Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.

Os homens vertem sangue
por doença,
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar,
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.

Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo,
olho-d'água escarlate,
encharcado cetim
que escorre
em fio.

Nosso sangue se dá
de mão beijada.
Se entrega ao tempo
como chuva ou vento.

O sangue masculino
tinge as armas
e o mar.
Empapa o chão
dos campos de batalha,
respinga nas bandeiras,
mancha a história.

O nosso vai colhido
em brancos panos,
escorre sobre as coxas,
benze o leito.
Manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda
da fêmea.

Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.

3 comentários:

Patricia disse...

Gostei muito do texto da Marina Colasanti, inspirador e até consolador...Todavia, diferentemente da autora, não tenho essa visão romântica da menstruação...e acho que passaria bem melhor com a ausência desta.
Beijos enormes!

Idéias da Karoll disse...

"Um dia encontrei alguém que falava como Marina... alguém diferente e com muita sabedoria... enfim... ser mulher é poder mestruar... gerar.. simplesmente ser... ser mulher!
Lindo o texto!
Bjos,
Karoll.

Adriano disse...

Gostei muito do texto. De fato um olhar diferenciado sobre a natureza feminina, absolutamente feminina. Mas os homens não vertem sangue somente na morte. Esquecendo um pouco o sangue que escorre, o homem também "dá seu sangue" quando acometido de insuperável encanto. E os fluídos de ambos passam a ser emblemáticos.